segunda-feira, 26 de novembro de 2012

CONTRADIÇÃO

Tu nasceste em berço de ouro
Eu nasci em catre podre.
Eu sou filho do agouro,
Tu és rico e eu sou pobre.

Entre rendas e bordados
Foste dado à luz pr'o mundo,
Tiveste cambraias, veludo,
Em leito de finos dourados.
O meu de panos remendados
Foi-me dado cm'um tesouro.
Entre miséria e agouro
Fui atirado aos farrapos.
Eu fui parido nos trapos,
Tu nasceste em berço d'ouro.

Cresci roto, esfarrapado,
Vesti roupas que me davam,
Comi restos que sobravam,
Duma açorda ou dum guisado.
Na pobreza fui criado,
Raquítico com tez de cobre
E tu gordo cm'um odre
Fartavas-te em rica mesa.
Enquanto conheceste riqueza
Eu nasci em catre podre.

Bem novo fui trabalhar
Em campos de que és senhor,
Não sabes que tenho amor
A bens que tu hás-de herdar,
Porque cedo fui regar
Com suor o trigo louro,
Mas não invejo o teu ouro,
Que produzo e nunca vejo.
Tu és filho do desejo.
Eu sou filho do agouro.

Tu vives na opulência,
Não sabes o que é sofrer,
Mas devias saber ver
onde há inteligência.
Mas vê bem não tens decência,
Nem sequer um acto nobre.
És devasso, tens mente pobre,
esbanjas sem teres estudado.
Eu podia ser letrado,
Mas és rico e eu sou pobre.

Lisboa, 14 de Setembro de 1983
M. Manços
CONTRADIÇÃO

Tu nasceste em berço de ouro
Eu nasci em catre podre.
Eu sou filho do agouro,
Tu és rico e eu sou pobre.

Entre rendas e bordados
Foste dado à luz pr'o mundo,
Tiveste cambraias, veludo,
Em leito de finos dourados.
O meu de panos remendados
Foi-me dado cm'um tesouro.
Entre miséria e agouro
Fui atirado aos farrapos.
Eu fui parido nos trapos,
Tu nasceste em berço d'ouro.

Cresci roto, esfarrapado,
Vesti roupas que me davam,
Comi restos que sobravam,
Duma açorda ou dum guisado.
Na pobreza fui criado,
Raquítico com tez de cobre
E tu gordo cm'um odre
Fartavas-te em rica mesa.
Enquanto conheceste riqueza
Eu nasci em catre podre.

Bem novo fui trabalhar
Em campos de que és senhor,
Não sabes que tenho amor
A bens que tu hás-de herdar,
Porque cedo fui regar
Com suor o trigo louro,
Mas não invejo o teu ouro,
Que produzo e nunca vejo.
Tu és filho do desejo.
Eu sou filho do agouro.

Tu vives na opulência,
Não sabes o que é sofrer,
Mas devias saber ver
onde há inteligência.
Mas vê bem não tens decência,
Nem sequer um acto nobre.
És devasso, tens mente pobre,
esbanjas sem teres estudado.
Eu podia ser letrado,
Mas és rico e eu sou pobre.
                                                                          
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M. Manços

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